Uma Diária
Um conto cotidiano.
O sol ainda estava no útero quando o alarme tocou. De olhos teimosos, ela levantou, tateando a mesa de cabeceira em busca do maldito ruído. Procedeu como um robô, programada para fazer as mesmas tarefas todos os dias. Urinou, tomou uma ducha, escovou os dentes, vestiu uma peça de roupa, comeu apressada e saiu. Reconhecia de longe seu coletivo. Na parada, estavam sempre as mesmas pessoas, todas mudas, ainda com o gosto de ontem. Tinha a sorte de estar próxima ao início da linha, assim garantia sempre o seu assento. Era um plástico duro e rabiscado, mas, junto à janela, era perfeito para apoiar a cabeça no vidro e tirar uma soneca durante o percurso sísmico. Pôs o seu fone de ouvido, com as mesmas músicas repetidas, e fechou os olhos. Quando os abriu, o transporte já estava apinhado de outras vidas conturbadas. Chegou ao seu destino após quase três horas de viagem nas entranhas da metrópole. Parecia se encontrar num outro país, tamanha a disparidade entre os bairros. Estava rodeada de edifícios colossais que barravam o sol. As calçadas eram limpas, as árvores podadas e as vias perfeitamente sinalizadas. Diferente de onde vinha, onde os lixos abarrotavam as calçadas, os postes não acendiam, as árvores, quando havia, eram tortas e feias, e as ruas esburacadas, totalmente esquecidas pelo poder público. Falou com a portaria eletrônica, que autorizou a sua entrada. Cumprimentou o zelador com um sorriso que às vezes esquecia que tinha. Seu Antônio também vinha de onde as ruas eram feias, mas não aparentava, tamanha a sua simpatia. O elevador estava cheiroso, havia acabado de ser limpo. Aportando no seu andar, tirou o molho de chave da bolsa e entrou pela porta da cozinha. O gato gordo lhe deu uma cabeçada na canela, lhe dando as boas-vindas. “Bom dia, Giselly!”, saudou o patrão. Ela abaixou a cabeça timidamente e retornou um bom-dia educado mas quase inaudível. Apressou-se em guardar suas coisas num quartinho miúdo no fundo da cozinha e correu para fazer o café da manhã da família. Ela gostava de olhar pela janela acima da pia, de onde vislumbrava um parque bastante arborizado. Em alguns períodos do dia era possível ouvir o canto das maritacas e aquilo lhe trazia uma paz enorme, lhe fazia esquecer de onde veio. As horas aceleraram. Fez um almoço completo para a família e para ela apenas uma farofa de ovos, era o que gostava e lhe era suficiente. Lhe convidaram para se juntar à mesa, mas ela deu uma desculpa de que ainda tinha um serviço que não poderia deixar para depois. Quando todos deixaram a mesa e se recolheram para seus cômodos, ela recolheu a louça suja e a lavou com pressa. Só então sentou numa banqueta na cozinha e comeu fugazmente a sua refeição. Ao fim do expediente, dirigiu-se à parada de ônibus, que estava cheia. Pegou o coletivo lotado e apertou-se entre os mais diversos corpos e odores. Foi um longo caminho até a sua rua. Desceu do veículo e aspirou o ar com gosto de fumaça e terra seca. Andou um quarteirão repleto de paredes quebradas e pichadas e calçadas irregulares. Finalmente chegou no lar, com entrada de tijolo cru. Era modesta a sua residência, mas, por a ter conquistado com seu próprio mérito, a confortava. Jogou-se na cama molenga, o quarto cheirava a mofo. Pensou no dia seguinte e engoliu em seco.



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