Seu Pereira e os Monólitos
Um conto sobre o Desenvolvimento ou a falta dele.
Os edifícios miravam lá de cima, como aves carniceiras, a única casa dos arredores. A residência em si não era muito grande mas o terreno onde estava inserida era enorme, com um jardim cuidado com esmero. A sombra das torres titânicas atrapalhava o crescimento da grama e das roseiras, mas o jardim permanecia de espada em punho sob o comando de seu general, Armando Pereira dos Santos, mais conhecido como Seu Pereira.
Pereira era servidor público aposentado, largou o ofício para se dedicar aos cuidados domésticos, especialmente a jardinagem. Probo, reto e zeloso, teve uma carreira exemplar em seu mister. Raríssimas vezes havia se atrasado e, nesses poucos casos, somente por força maior. Não abaixava a cabeça para os donos da razão e seguia as regras estritamente, tanto que batia o ponto de forma religiosa, na entrada e na saída, se negando a fazer hora extra. Trabalhava somente dentro de seu horário, mas realizava o ofício com excelência.
Nosso protagonista, após ter vivido o suficiente e tolerado muita gente escrota pela estrada pedregosa da vida, venceu a corrida. Jurou a si usufruir do merecido descanso e assim fez, por um bocado de tempo. Não fosse a boca insaciável do desenvolvimento, de fato estaria gozando de seu paraíso particular. Ocorre que o tempo nunca é generoso com quem não liga para o relógio.
Primeiro foi o vizinho lá da esquina, vendeu o imóvel a preço de banana. Depois foi a vez do careca ganancioso do outro lado da rua, pediu uma grana gorda em sua imensa propriedade e se mudou para um bairro de maior vulto financeiro. Assim, um por um, a vizinhança foi perdendo os muros vazados, as plantas à mostra, as cadeiras na calçada, as crianças brincantes, as árvores idosas... Erigiram castelos de ordem das realezas da mais alta classe, com suas muralhas impenetráveis, câmeras de segurança, guaritas quadradas e jardins tão projetados que passavam despercebidos aos olhos dos transeuntes.
Com o insensível passar do tempo, a única casa que havia sobrado naquele quarteirão era o imóvel do Seu Pereira. Numa frequência cada vez maior, surgiam à sua porta corretores portanto a voz de grandes construtores, oferecendo uma monta irresistível de dinheiro para que abrisse mão de sua amada casa. No entanto, nosso herói não dava o braço a torcer. “Daqui não saio e, se quiser me tirar, só por cima do meu cadáver”, era o bordão utilizado por Pereira. As personas non gratas logo iam embora com feições desagradáveis. Outra vez recebeu uma ameaça de morte pelo telefone e assim retrucou: “Meu querido, já vivi mais do que o suficiente. Quando é que você vem me fazer esse favor?”.
O velho Pereira teve uma esposa, a qual se divorciou alegando que ele era uma pessoa insuportável. Ela se casou com outra pessoa e alguns anos depois faleceu em razão de um infarto fulminante. Teve ainda dois filhos, um vivia num mar de rosas, acompanhado de uma bela esposa e duas crianças, imóvel com piscina em bairro nobre e tudo mais; ao outro a vida reservou tapas e socos no estômago.
Osmar, o filho ferrado, era inteligente mas especialista em péssimas escolhas. Fora aprovado em duas universidades, em cursos de renome, mas abdicou de ambas para montar um negócio. Fez um empréstimo ambicioso, mas a sua ambição era tão grande quanto sua incompetência. O empreendimento faliu e as dívidas o afogaram. Teve as contas bloqueadas, o veículo apreendido e o imóvel penhorado. Tentou suicídio duas vezes, sem êxito. No fim das contas, conseguiu sobreviver às custas das mesadas do pai, o qual pagava suas feiras e aluguéis, bem como o martelava com broncas toda vez que abria a boca.
Seu Pereira ficou conhecido como “O Velho da Rua dos Apartamentos”. Diziam as más línguas que ele era tolo por não aceitar o dinheiro, mas as boas admiravam sua coragem e disposição em não se render ao irrefreável desenvolvimento. “Desenvolvimento de verdade é árvore, bicho e criança brincando na calçada”, afirmava. A pressão sobre o velho foi tanta que ele chegou a colocar uma placa em frente ao portão de sua casa com os dizeres: “Não vendo este imóvel”.
Durante uma confraternização familiar, Seu Pereira disse aos filhos: “Essa gente aí que quer me comprar é aquela mesma que diz que as folhas na calçada são sujeira. Olha, enquanto eu for vivo, não vou sair daqui. Quando eu morrer, vou deixar a casa para vocês, aí vocês decidem o que vão fazer. Mas, se forem mesmo filhos meus, sabem muito bem que decisão deverão tomar!”. Todo aquele estresse pela pressão imobiliária foi aos poucos minando a saúde de aço do velho. As mazelas da melhor idade chegaram mais cedo do que deveriam. Artrite, bursite e hérnia de disco esbulharam seu organismo.
Em um dia de sol muito bonito e florido, Seu Pereira se sentou na cadeira de balanço em sua varanda e contemplou o tempo passar por horas a fio. Estava ali, dialogando com a vida em silêncio. Quando finalmente entrou em casa, foi tomar um banho quente. Enquanto se enxugava, escorregou no piso e bateu a cabeça com força na cerâmica da pia. Nosso estimado protagonista sentiu o líquido quente escorrer detrás de seu crânio e viu a vida, pouco a pouco, ir ralo abaixo.
A missa de sétimo dia contou com depoimentos emocionantes de antigos vizinhos. Os filhos mal conseguiram falar de tão chorosos. Osmar disse que o pai lhe salvou da morte e recuperou sua dignidade. Heitor, um dos ex-colegas de vizinhança, falou que ainda tinha consigo várias plantas em sua residência que foram presentes de Pereira. Gilberto, antigo morador de uma das casas do quarteirão, enalteceu o amigo e disse que suas palavras e atitudes nunca seriam esquecidas.
Não foi necessário ingressar com a ação de inventário, pois os herdeiros acordaram entre si. O filho perfeito disse que não fazia questão de ficar com o imóvel, pois já tinha casa própria e andava bem financeiramente. Cedeu sua parte da herança à ovelha negra da família, num ato de compaixão pela situação precária do irmão.
Osmar viu na aquisição da herança uma oportunidade de recomeçar e subir na vida. Empreendedor, tinha lido diversos livros de milionários bem-sucedidos a respeito das áreas mais promissoras para se estabelecer uma empresa e precisava apenas do capital para iniciar sua jornada rumo ao enriquecimento. Ele foi atrás de diversos interessados na compra do imóvel, até encontrar um valor que poderia satisfazer sua cobiça.
Osmar finalmente fechou negócio com um comprador que tinha interesse em construir um prédio no local, mas impôs uma condição essencial sem a qual não venderia o imóvel. A exigência foi aceita de bom grado pelo adquirente. Então, o edifício foi inaugurado. Seu nome constava numa lustrosa placa de mármore: Edifício Armando Pereira dos Santos.


