O ser humano é mesmo tão bobo. Hoje chorei por uma saudade antecipada, enquanto a minha bebê dormia sobre meus ombros e eu mirava o farfalhar das palmeiras do vizinho em contraste com o céu azul. Chorei porque pensei demais no futuro, chorei porque era belo aquele momento, e a beleza comove. O ser humano deve ser o único bicho que mora tanto no amanhã, um amanhã que muitas vezes reside somente em nosso imaginário. Um cachorro ou um gato levam a vida no momento presente, ainda amarguram uma coisa ou outra do passado, mas o futuro não faz parte do vocabulário de seus corpos. Como bem disse o cronista Rubem Alves: “Somos iguais aos animais, em que as mesmas coisas terríveis podem acontecer a eles e a nós. Mas somos diferentes deles porque eles só sofrem como se deve sofrer, isto é, quando o terrível acontece. E nós, tolos, sofremos sem que ele tenha acontecido. Sofremos imaginando o terrível”.
Meus olhos marejaram ao pensar que a minha bebê muito em breve não dormirá mais sobre meus braços. Este ninho de carne que tanto ofertou segurança será a matéria-prima de seu voo. Aprenderá a dormir sozinha e buscará descansar sob a própria sombra. À medida que os filhos crescem, proporcionalmente cresce também a sua zona particular, onde orbitam em sua gravidade apenas as coisas de seu interesse e é tão difícil adentrar. Sei que chegará o dia em que darei de cara com a porta do quarto fechada e terei de pedir permissão para o ingresso. Aí pensarei de novo no momento que me comoveu, você dormindo em meus ombros enquanto bebia uma mamadeira cheia de leite morno. Porque sei que tudo passa e isso é um alívio e também um pesadelo.
Tantas vezes, enquanto mergulho entre documentos no trabalho, me vem à mente o seu riso sincero e iluminado e rogo logo para voltar para casa e lhe ouvir: “papaaaaai!”. Nutro neste momento uma saudade que ainda não chegou, mas a temo como a notícia de um desastre iminente inevitável, como um evento que quero distante para sempre. Eu não quero ouvir os sussurros do tempo, quero emoldurar alguns instantes e fixar residência neles.
Faz parte também da matéria humana a antítese. Quero te ver crescer, acompanhar cada passo e cada conquista sua. Simultaneamente, não quero te ver crescer, permaneça assim pequena, ainda lutando para encontrar as palavras, ainda correndo trôpega. Quero te ver independente, fazendo o que você gosta sozinha, tendo seu próprio espaço. No entanto, não quero te ver partindo deste lar, não quero que saia da sua cama baixinha no quarto ao lado do meu. Tampouco quero que você independa de mim para dormir. Decreto que seja congelado o momento sagrado de contar uma historinha na hora do leite noturno. Amar um filho é isto, conviver diariamente com a dialética. Uma mesclagem de exaustão e satisfação, de explosões e felicidades.
Me veio tudo isso à mente quando as lágrimas, que há muito não davam as caras, salgaram e queimaram o meu rosto, assim, sem mais nem menos. Indaguei o porquê delas, tão repentinas. Eu não estava triste, pelo contrário, bastante contente e confortável. Mas as lágrimas saíam independentemente de qualquer coisa, como se precisassem escoar, como uma necessidade fisiológica, imperativa. A lágrima vem quando o corpo está transbordando algo. Acho que naquele momento transbordei a beleza, transbordei o amor e um pouco de medo, por não poder segurar o tempo nas mãos.



Muito lindo filho, mas os nossos filhos crescem para o mundo, queria eu que vc e seu seu irmão nunca tivessem crescido permanecessem sempre criança, me lembro de quando eram criança eu brincava com vcs, lia livros da turma da Mônica pra vcs, assistir filmes infantis, pequena sereia, a gata borralheira, branca de neve e outros desenhos animados. Sinto saudades desses momentos até hoje 😁😟
Um dos textos mais lindos que li nos ultimos tempos. obrigada por isso!