Papo Profano
— O paraíso deveria ser um orgasmo eterno. Aquela sensação de desligamento e prazer total. Que há de mais divino que isso?
— Olha, se o céu for como pintam, eu quero é ficar aqui na Terra até esquecer quem eu sou!
— Afinal, não há nada mais gostoso que o doce pecado, né? Por isto o condenam tanto, é um perigo! E tudo que é perigoso é mais saboroso. O perigo é um tempero, é sedutor, excitante!
— Acho que nunca deixamos de ser bicho. Temos essa necessidade vital de ser selvagem, de rasgar qualquer cartilha e de tirar qualquer razão. Quando enfim pomos tudo em ordem, há um instinto de virar tudo de cabeça pra baixo. Vestimos a máscara de ovelhinha, mas o lobo que habita cada um de nós está sempre à espreita. “O homem é o lobo do homem”, em todos os sentidos.
— Quando vem a tempestade, a tinta escorre e nos revelamos todos ovelhas negras. Que delírio é esse de querer que seja tudo perfeitinho? Logo nós que não passamos de galhos tortos e entrelaçados na árvore da vida.
— Perfeito! A natureza abomina a perfeição e também esquecemos que, querendo ou não, ainda somos filhos dela. Uma mata virgem é o puro caos. As plantas crescem altas e disformes. Há fungos, insetos peçonhentos, fedor, riscos… Ainda assim, lá a vida pulsa como nunca, lá a vida é sincera e fantástica. É impossível uma vida plena sem um naco de caos.
— Se fosse eu no lugar de Eva, também comeria a maçã sem pensar duas vezes. Cantou Belchior: “Nunca fazer o que o Mestre mandar, sempre desobedecer, nunca reverenciar”. Não adianta fugir da natureza humana. Somos o pecado em carne e osso e temos fome de conhecimento. Não aceitar isso é viver um conto de fadas.
— Prefiro viver um conto de fodas. Sabe, foder e me permitir ser fodido. Quem nunca foi fodido sem consentimento pela vida que jogue a primeira pedra! O prazer é nossa dádiva, o suprassumo da existência humana. Gozar desse bem corpóreo é um dever. Honrar com este presente divino que nos foi dado. Viver é buscar um caminho para o prazer, pois a felicidade é um prazer, sonhar é um prazer, comer é um prazer... Pecado é não viver!
— Mas tenho medo do prazer… O prazer sempre demanda mais e isto leva a caminhos sombrios. Quanto mais prazer se tem, mais se busca, num ciclo interminável, doentio. Quando percebemos, estaremos totalmente escravizados e enfermos. Olhem os ricos e poderosos, não sabem o que fazer, já fizeram de tudo, a vida perdeu a graça. Todo o dinheiro do mundo é pouco para satisfazer a gana profana de sempre querer mais e mais. Ter tudo o que se pode ter nos apodrece. A busca incessante pelo prazer é imoral, não conhece limites, é profana.
— Pensem bem, talvez só tenhamos esta chance. Quem garante que teremos algo depois daqui? Quem garante que não passamos de uma grande e maravilhosa fortuna no meio de um caos incompreensível? Quem garante que sequer existimos e tudo isto não passa de um delírio? Afinal, o que é real? Para mim, é tudo aquilo que sentimos, tangível ou intangivelmente. Embora eu não toque o amor, ele me toca, ele é real. Ao mesmo tempo em que fundo a minha carne com a de outro alguém e vislumbro nosso futuro dentro de minha cabeça, aquela premonição, certamente errônea, é real, é verdadeira, porque a sinto, ainda que não vá se concretizar.
— Não fomos feitos para revelar o grande mistério entre a vida e a morte. Nos foi dada uma prisão segura chamada razão. Fora dela há caos e loucura. A nós é permitido um deslumbre dessa sopa primordial. É a arte uma amostra de tudo que há no infinito desconhecido, o qual só vemos a margem. A emoção é a janela que permite a entrada desta brisa agradável e essencial. Sentir, é para isto que somos feitos, é disto que somos feitos. Quem não sente não está vivendo, apenas pulsando e inflando os pulmões.
— Concordo contigo, só o sentimento traz plenitude e equilíbrio. O dinheiro não pode comprar um gesto e um gesto vale mais que qualquer moeda. Muitos perseguem apenas a grana, sem saber que não há nada mais limitado do que isto. O dinheiro, mesmo necessário para a sobrevivência, não é vital. A arte é vital, a viagem é vital, o encontro é vital, não há como se sentir vivo sem perseguir o que supera a cela da realidade.
— “A arte existe porque a vida não basta”. A vida é diminuta quando ouvimos um pássaro cantar sobre um fio de poste. A vida é uma formiga quando olhamos a simetria das constelações na imensidão celeste. A vida é um átomo quando percebemos que a existência embora tão potente e valiosa, ainda assim é vã na costura infinita da linha do tempo.
— Foda, aí me tocou fundo.
— Galera, desculpa, mas esse papo não vai levar a lugar nenhum…


