Mudando os Móveis e a Casa de lugar
Quando a mudança se faz imperiosa.
É a nossa casa um espelho, um reflexo do que se passa dentro da gente. Quando o eu anda enfraquecido, deixamos de nos imprimir nas entranhas do lar, a casa vira um amontoado de coisas sem pulso. Ao contrário, quando estamos primavera, a casa sorri conosco. Tudo perfeitamente em ordem, tudo exalando cor e vida, paz. Muitas vezes, mudar a casa também muda a gente, pois somos unha e carne.
Quando adentrar numa casa pela primeira vez, atente bem ao que você vê, pois está penetrando na alma de quem ali reside. Observe os detalhes. Roupas largadas pelos cantos, coisas que deveriam estar num cômodo estão em outro, não há plantas, não há bichos, não há retratos. A cama está desarrumada, os lençóis ainda dormindo no mesmo lugar. A pia está abarrotada de louça suja e o escorredor ainda está cheio dos itens lavados no dia anterior. As escovas de dentes estão esgarçadas e a saboneteira encrustada de sabonetes passados das mais diversas cores. Brinquedos não usados por toda parte, na esperança de que alguém ainda os traga à vida. Livros empoeirados rogando por uma visita. As plantas estão morrendo. A parede ainda está com furos de algo que estivera parafusado ali antes. A tinta está desbotada. Os ralos entupidos. Um espelho está trincado há anos.
Se alguém lhe convida para visitar a sua casa, tenha certeza que é um ato de grande confiança e intimidade. Seria algo como ver as partes íntimas de sua alma. Pois a casa é também um órgão de nosso corpo, um objeto vascularizado. Uma casa pode ser triste ou feliz. Uma casa pode ser ansiosa ou zen. Uma casa pode ser música ou ruído. Portanto, arrumar a casa é uma espécie de terapia, não é apenas pôr ordem nos objetos, é desconstruir o caos que habita cada um de nós. Se não conseguimos olhar para dentro de nós, podemos fazer um esforço e olhar para o lado externo, o ambiente em que vivemos. Ali constatamos que algo deve estar errado dentro da gente.
Já há comprovações científicas da estreita relação entre arrumar a casa e a saúde mental. Pôr a casa em ordem reduz a ansiedade, regula as emoções, alimenta o bem-estar, reduz inclusive a procrastinação. Uma casa em ordem é uma pessoa em ordem. Embora seja o caos uma norma da natureza, é preciso aceitar que a natureza humana tem as suas independências. A natureza humana floresce mais em meio à perfeição, quanto mais perto chegamos dela, melhor nos sentimos. Nunca a alcançaremos, porque ela não existe, mas persegui-la em muitos casos nos trará muita satisfação. Isso vale para o lar. Buscar trazer a perfeição para ele é alinhá-lo o mais próximo possível a nós, é estabilizar as nossas inconstâncias.
No acolhimento entre o sofá e a tevê, o corpo volta ao útero. Num banho após um dia longo, um corpo morto volta a respirar. A casa é um santuário inviolável. Quando um corpo estranho ousa se aproximar, entramos em modo de defesa, como um soldado a defender as muralhas de um castelo. Uma campainha tocada repentinamente já traz palpitação e nervosismo: “quem ousa violar este espaço santo!?”. Não à toa se foge de certos missionários religiosos que vêm bater à nossa porta em pleno domingo de manhã como o diabo foge da cruz. Às vezes só queremos nos mimar com as nossas certezas, demonstrar que é possível a gente mandar na vida ou pelo menos ter a ilusão disso.
Eu não quero que alguém me interrompa quando estou correndo os olhos numa leitura eletrizante. Eu não quero que alguém me cutuque para eu tirar os fones de ouvido enquanto estava quase lá, num orgasmo musical. Eu não quero que alguém tenha a afronta de expelir um verbo enquanto tomo meu café contemplando o tempo, o espaço e o meu interior. São nesses momentos, dentro do conforto e segurança do lar, que armo ao meu redor um aramado, uma trincheira. Rezo para que não cruzem este espaço, que não venham as bombas.
Portanto, permanecer tempo demais numa realidade absoluta e intocada pode ser perigoso. Blindar demais o nosso bunker pode nos encher de uma certeza confortável mas cruel. Estamos mais suscetíveis a sermos reféns de nós mesmos e um corpo muito cheio de si pode não suportar o próprio peso. De vez em quando, se faz imperioso mudar os móveis de lugar. Ajustar nosso espaço ao nosso estado de espírito, pois é sabido que a cada aurora não somos mais os mesmos. A casa deve ser mutante como nós. Uma casa só deve parar de se mexer quando erma. A partir do instante em que mudamos algo de lugar, damos um passo a mais rumo à resolução do cubo mágico residencial, o alinhando ao que estamos sendo naquele momento, adequando a casa aos nossos sentimentos e aos nossos desejos. Tudo isto trará uma sensação de alívio, de satisfação e plenitude, como tudo que é novidade. Mas para mudar é preciso sepultar um medo, o medo do novo. O novo é um monstro horrendo dos sete mares à primeira vista, mas quando o desvendamos através do primeiro passo vemos que, na verdade, é um tesouro que não estava marcado no mapa. Por isto, nunca devemos deixar de içar as velas.
Enfim, chega o dia fatídico em que precisamos mexer naquele bioma estritamente controlado. É temido o dia em que devemos enfrentar a nós mesmos e mexer no que está profundamente estabelecido como uma lei universal e irrevogável. Uma cirurgia. É preciso uma incisão para retirar a cama do quarto, uma cesárea para remover todas as vestes de nosso guarda-roupa e as transplantar nas malas. Estamos mexendo em nossas entranhas sem anestesia. É uma dor necessária, daquelas que ninguém está imune. Nesse momento, se vislumbra toda a nossa vida, como uma experiência de quase morte. As mãos passam por objetos e lembranças que há muito não se viam e se tocavam. Nos vem uma saudade forte, como se um ente querido estivesse partindo. No entanto, uma saudade boa, a memória de tudo que já foi experimentado em nossos parcos anos. Daremos adeus a algumas partes de nós e levaremos conosco o restante. Retiraremos uma certa bagagem para que caibam novas. É preciso ajustar o peso do que vamos carregar para que seja possível seguir viagem.
Ver uma casa vazia, onde ecoamos, é como rasgar um casulo confortável, onde estivemos uma boa parte da vida. Pela obrigatoriedade do movimento, fomos compelidos a pôr as asas para fora. Nasce sempre um medo quando morre uma certeza. A nossa casa é isso, uma certeza. A importância da casa é sermos submetidos a nossas próprias leis criadas a nosso favor, a bel prazer. Chegar em casa é tirar toda máscara, é barrar toda opinião e todo olhar alheio, é enfim estirar a bandeira branca. No momento em que esta certeza é assassinada, voltamos à guerra e quem vai à guerra não sabe se vai voltar. Muitas vezes não voltamos. Uma parte nossa morreu ali com o velho abrigo e um outro ser está à véspera de ser parido. Buzinou o carro do frete, vieram muitas mãos. Deu-se à luz.



Descreveu com muita destreza a nossa conexão com a casa, um santuário. Adorei toda a analogia com o útero e dar a luz.
Que lindo!! Ameiii as perspectivas!! Realmente, poesia pura!!! Parabéns!!! 🙌👏👏👏👏👏